COLÓQUIO INTERNACIONAL

 

ESCRAVATURA E MUDANÇAS CULTURAIS

ÉVORA, 28 a 30 de Novembro de 2001

 

 

 

TEXTO DE APRESENTAÇÃO

 

 

A globalização não é um fenómeno dos dias de hoje: a viagem de Fernão de Magalhães, ao estabelecer a ligação entre os grandes oceanos, permitiu que a cartografia quinhentista pudesse mostrar a complementaridade existente entre os mares e os continentes. Como também entre os homens.

É no quadro de um conhecimento em constante elaboração que intervém a banalização da escravatura e a criação do tráfico negreiro. Se é certo que a História não dispõe dos elementos necessários a uma datação rigorosa do momento inicial deste processo esclavagista, tal não impede que possamos dar‑nos conta da sua intervenção na organização das sociedades modernas.

O inventário das mudanças verificadas desde o século XV permite constatar que as grandes transformações impostas pela criação das ecologias do capitalismo impuseram o recrutamento maciço da força de trabalho. Milhares e milhares de homens, mulheres e crianças africanos foram assim arrancados à sua terra, às suas famílias, às suas casas e às suas estruturas sociais e transportados para longe: primeiro, para a Europa, depois, para as Américas. Mas foram também levados para outras regiões de África e mais tarde, para a Ásia.

Este Colóquio pretende por em evidência essas transformações que, em primeiro lugar, atingiram os homens e as suas formas de organização. A distribuição das populações foi totalmente alterada a partir do século XV: os valores culturais de hoje resultam dessas operações de violência.

Mas estas operações arrastaram consigo a revisão das formas e das técnicas culturais: se a paisagem se modificou em consequência das viagens das plantas e das modificações verificadas no que respeita às estruturas e aos materiais de construção, é sobretudo importante reter a maneira utilizada pelas sociedades dos homens para fazer avançar a virtualidade das formas. Os campos e as cidades adquirem perfis inesperados, de que nós somos simultaneamente os historiadores e os utilizadores.

Se a música está em via de se tornar o sinal de um imaginário fortemente mestiçado, seria inaceitável esquecer a importância das línguas (será necessário referir que o substantivo banana, uma das palavras mais universais que existe, é de origem africana?), mas também não podemos deixar de salientar as formas de fazer e de consumir a cozinha. O homem socializa e ocupa a terra, tornando‑se o organizador das regras e dos direitos; mas torna‑se sobretudo o produtor e o mágico que assegura a metamorfose dos minerais e a alquimia dos alimentos.

Se o laço que une a África e a América mobiliza a música, não pode ‑ nem quer ‑ dissimular a importância da culinária, ao serviço do prazer, mas também numa relação estreita com os antepassados e com os espíritos que põe em evidência a associação entre os mortos e os vivos: a possessão, tal como a diversidade dos factos religiosos, faz parte dessa imensa rede das buscas do sentido.

Este laço existente entre os dois continentes atlânticos é igualmente visível na importância que assumem as formas de resistência ‑ tal como os quilombos e os mocambos ‑ que permitiram uma articulação entre as populações Índias e os Africanos que recusavam a violência da dominação. Tal situação conduziu ao aparecimento de formas de organização inovadoras, à criação de estruturas destinadas a reforçar a complementaridade das sociedades dominadas. As formas religiosas contribuíram também para tornar mais vigorosa essa procura da autonomia.

A vida não pode separar‑se da morte: os espíritos índios e africanos formam uma constelação virtualizada, que se mantém activa e eficaz nos espaços sagrados como é o caso dos terreiros . Se estamos longe de ter esgotado o conhecimento dos mecanismos que arrastados pela escravatura e pelo tráfico negreiro permitiram fabricar as sociedades americanas, e também africanas, é necessário ter em conta a contribuição dos Africanos ‑ mesmo submetidos à violência das escolhas feitas pela Europa e pelo mundo muçulmano ‑ para a construção da globalização. A violência, a brutalidade dos homens não podem impedir a emergência redentora das novas maneiras de imaginar e de construir o mundo: a tarefa deste Colóquio é torná‑las visíveis.

 

 

Comissão Organizadora:

Isabel Castro Henriques – Presidente do Comité Português de “A Rota do Escravo” e membro do Comité Científico Internacional/UNESCO

Jorge Fonseca - Comité Português de “A Rota do Escravo”

Eduardo Medeiros – NESA/CIDEHUS Universidade de Évora

Elisa Lopes da Costa - CEA/FLUL

Joana Melo Antunes - CEA/FLUL

Márcia Lameirinhas - CEA/FLUL

 

 

Comissão Científica:

Todos os Membros do Comité Português do Projecto UNESCO “A Rota do Escravo”

 

 

Comissão de Honra:

·                    Ministro dos Negócios Estrangeiros

·                    Ministro da Cultura

·                    Ministro da Educação

·                    Ministro da Ciência e da Tecnologia

·                    Embaixador de Angola em Portugal

·                    Embaixador do Brasil em Portugal

·                    Embaixador de Cabo Verde em Portugal

·                    Embaixador da Guiné-Bissau em Portugal

·                    Embaixador de Moçambique em Portugal

·                    Embaixador de São Tomé e Príncipe em Portugal

·                    Embaixador de Timor Leste em Portugal

·                    Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e Cooperação

·                    Director-Geral da UNESCO

·                    Director da Divisão dos Projectos Interculturais da UNESCO

·                    Presidente do Comité Científico Internacional do Projecto UNESCO “A Rota do Escravo”

·                    Presidente da Comissão Nacional da UNESCO

·                    Presidente do ICP - Instituto de Cooperação Portuguesa

·                    Presidente do Instituto Camões

·                    Presidente da Fundação para a Ciência e a Tecnologia

·                    Presidente do ICCTI - Instituto para a Cooperação Científica e Tecnológica Internacional

·                    Presidente do IICT – Instituto de Investigação Científica Tropical

·                    Alto Comissário para a Imigração e as Minorias Étnicas

·                    Presidente da Câmara Municipal de Évora

·                    Governador Civil de Évora

·                    Reitor da Universidade de Évora

·                    Reitor da Universidade de Lisboa

·                    Presidente do Conselho Directivo da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa

·                    Secretária Executiva da CPLP – Comunidade dos Países de Língua Portuguesa

·                    Presidente da Fundação Calouste Gulbenkian

 

 

 

 

 

Instituições Organizadoras:

Comité Português do Projecto UNESCO “A Rota do Escravo”

Centro de Estudos Africanos da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa – CEA/FLUL

 

Instituições Co-Organizadoras:

Câmara Municipal de Évora

NESA/CIDEHUS – Universidade de Évora

 

Apoios e Patrocínios:

Divisão dos Projectos Interculturais da UNESCO

Fundação para a Ciência e Tecnologia – FCT (FACC) – Apoio do Programa Operacional Ciência, Tecnologia, Inovação do Quadro Comunitário de Apoio III 

Câmara Municipal de Montemor-o-Novo

Biblioteca da Ajuda

Centro de Informação e Documentação Amílcar Cabral - CIDAC

Comunidade dos Países de Língua Portuguesa - CPLP

Banco Português de Investimento - BPI

Cafés Delta

 

 

Programa

 

 

28 Novembro 2001

 

 

 

18,30 horas  - Sessão Solene de Abertura

Salão Nobre do Teatro Garcia de Resende - Évora

 

 

Presidente da Câmara Municipal de Évora

Reitor da Universidade de Évora

Director da Divisão dos Projectos Interculturais da UNESCO

Presidente do Comité Científico Internacional do Projecto UNESCO “A Rota do Escravo”

Presidente da Comissão Nacional da UNESCO

Presidente do Comité Português do Projecto UNESCO A Rota do Escravo

 

 

 

       No final será servido um “Alentejo de Honra”

 

 

 

Universidade de Évora - 29 Novembro 2001

Inovações na organização dos espaços e dos homens

 

 

 

1ª Sessão

     Moderador – Embaixador Corsino Tolentino (FCG)

 

 9,30h – Alberto da Costa e Silva, Academia Brasileira de Letras e,

                Comité Brasileiro de A Rota do Escravo, Comité Científico

                Internacional/UNESCO  - “A casa do escravo e do ex-escravo” 

 

10,00h – Alfredo Margarido, Universidade Lusófona, Lisboa, Comité Português  

                 de A Rota do Escravo - “Escravos e plantações: as inevitáveis 

                mestiçagens técnicas”

 

10,30h – Pausa para café

                

 

11,00h – Inauguração da exposição de trabalhos de jovens estudantes portugueses e galegos, no Teatro Garcia de Resende, seguida da representação teatral “O Caminho para a Liberdade”, pela Companhia Planeta Maravilha.

 

13,00h – Almoço (no Restaurante Grill da Universidade)

 

 

2ª Sessão

     Moderador – Mr. Doudou Diene (UNESCO)

 

14,30h – Joel Rufino dos Santos, Universidade do Rio de Janeiro, Comité

                Brasileiro da Rota do Escravo e Comité Científico

                 Internacional/UNESCO – “O Negro que a escravidão criou: dois

                 séculos de literatura e história do Brasil”

15,00h – Laënnec Hurbon, Comité do Haïti da Rota do Escravo e Comité   

                Científico Internacional/UNESCO – “L’imaginaire de l’Afrique dans

                les cultures de la Caraibe”

15,30h – John Thornton, Linda Heywood, Millersville University of

                Pensylvania/EUA – “Angolans in the formation of

                the Anglo-Dutch colonial world, 1615-1650”

 

16,00h – Pausa para café

 

 

3ª Sessão

     Moderador – Prof. Ilídio do Amaral (IICT)

 

16,15h – Valdemir Zamparoni, Universidade da Baía/Brasil – “Chibalo: trabalho

                 livre, trabalho escravo em Moçambique colonial?”

16,45h – João Dantas Pereira, Centro de Estudos Africanos da Universidade  de

                 São Paulo/Brasil – “Da Ocupação e Concessão de Terrenos à 

                 organização dos espaços e dos homens – a chegada dos caboverdianos

                 à Guiné no século XIX”

17,15h - José Manuel Fernandes, Universidade de Lisboa, Comité

              Português de A Rota do Escravo-  “Espaços urbanos e 

              arquitectónicos resultantes das mudanças culturais motivadas pela

              escravatura”

 

17,45h – Debate geral

 

 

19,00h - Inauguração da Exposição “Lugares de Memória da Escravatura em Portugal” de Jorge Fonseca, na Igreja de São Vicente. Apresentação pelo autor.

 

 

20,30h – Jantar oferecido pela Câmara Municipal de Évora ( Restaurante Monte Alentejano )

 

 

 

 

Universidade de Évora - 30 Novembro 2001

Quotidiano, normas e resistências

 

 

4ª Sessão

     Moderador – Embaixador Alberto da Costa e Silva (ABL)

 

9,30h – Maria Emília Madeira Santos, Instituto de Investigação Científica

                Tropical e Comité Português de A Rota do Escravo- “Escravos e Escravocratas.

                “Vadios” e Coronéis – Séculos XVI-XVIII”

10,00h – António Correia e Silva, IICT, “Quilombos em Cabo Verde”

10,30h -  Maria do Rosário Pimentel, Universidade Nova de Lisboa e

               Comité Português de A Rota do Escravo – “Sob o signo do pecado:

                Jorge Benci e as normas de convivência entre senhores e escravos

                na sociedade colonial brasileira”

 

11,00h – Pausa para café

 

 

5ª Sessão

     Moderador – Amadou Mahtar M’Bow (UNESCO)

 

11,15h – José Curto, Universidade de York/Canadá,  “Failed restitution:  Ngola

                 Ari, Captain Teixeira, his widow and the ’10,000 stolen’ Ndongo  

                 subjects, circa 1620-1665”

11,45h – Eduardo Medeiros, Universidade de Évora – “A escravatura no

                norte de Moçambique: formação de novos espaços e entidades políticas”

12,15h – José Capela, Centro de Estudos Africanos da Universidade do Porto,

                Comité Português da Rota do Escravo, “Normas e resistências em

                Moçambique”

 

13,00h – Almoço (no Restaurante Grill da Universidade)

 

 

6ª Sessão

     Moderador –  Laënnec Hurbon (Universidade do Haiti)

 

14,30h – Dany Bebel-Gisler, Comité da Guadalupe da Rota do Escravo

                e Comité Científico Internacional/UNESCO – “La Route de l’Esclave:

               destination Guadeloupe. Comment la culture, la mémoire,

               l’imaginaire, le symbolique sont venus au secours de l’existence”

15,00h – Dulce Pereira, Universidade de Lisboa, Comité Português

                de A Rota do Escravo – “A língua do Escravo: entre a ficção e

                 realidade”

15,30h – Ivan Alves Filho, historiador, Brasil, “O Quilombo dos Palmares: resistência e

 síntese cultural”

 

16,00h – Debate geral

 

17,00h – Pausa para café

 

 

17,30h – Apresentação do Guia Lugares de Memória da escravatura e do tráfico negreiro  Angola - Cabo Verde - Guiné-Bissau - Moçambique -  São Tomé e Príncipe por Isabel Castro Henriques e Isabel Medeiros (FLUL). O lançamento oficial deverá realizar-se em Cabo Verde em Maio de 2002.

 

 

18,30h – Sessão de Encerramento

 

20,30h – Jantar oferecido pelo Magnífico Reitor da Universidade de Évora

 

 

Actividades Culturais

 

 

29 de Novembro – 11,00h – Teatro Garcia de Resende

Visita à Exposição de trabalhos da autoria de diversos jovens estudantes potugueses e galegos consagrados à temática do tráfico negreiro. 

Espectáculo de Teatro para Jovens “O Caminho para a Liberdade” de Beatriz Quintella/Planeta Maravilha. Uma segunda sessão terá lugar às 14,30horas.

 

29 de Novembro – 19,00h – Igreja de São Vicente

Inauguração da Exposição “Lugares de Memória da Escravatura em Portugal” de Jorge Fonseca. A exposição estará patente ao público durante o mês de Dezembro de 2001.          .

 

1 de Dezembro –

10,00h  - Visita guiada a Évora

12,30h – Almoço (no Restaurante Grill da Universidade)

14,30h – Passeio a Monsaraz e Estremoz onde será visitado o Museu Municipal que

 integra uma colecção de cerâmica, parte da qual consagrada à representação de

 Africanos negros.